Autor: Márcio Ferrari - Nova Escola - 11/05/2011
Desafios como a criação do hábito da leitura entre crianças e adolescentes, as
novidades tecnológicas, a ampliação do acesso ao ensino e a sofisticação do
mercado editorial levaram o professor Edmir Perrotti a uma nova concepção de
biblioteca escolar e de seu papel pedagógico.
Com formação em Biblioteconomia - área que combinou com seu interesse em
Educação -, ele é docente da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de
São Paulo, conselheiro do Ministério da Educação para a política de formação de
leitores e autor de livros infantis.
Perrotti orientou a implantação de redes de bibliotecas inovadoras nas escolas
municipais de São Bernardo do Campo, Diadema e Jaguariúna, no estado de São
Paulo. Nessas estações de conhecimento, como ele prefere chamá-las, a
aprendizagem é estimulada pela presença de suportes tecnológicos, como o
computador e a televisão.
Em um ambiente que convida as crianças a descobrir e aprofundar o prazer da
leitura, os livros convivem com outras linguagens, como a do teatro.
"Assim trabalha-se o contato com as informações e também o processamento
delas", diz. Ex-professor da Universidade de Bordeaux, na França, e de
escolas de Ensino Fundamental no Brasil, além de editor e crítico literário,
Perrotti concedeu a seguinte entrevista a NOVA ESCOLA.
O que deve orientar a constituição de uma biblioteca escolar?
Edimir Perrotti Ela não pode restringir-se a um papel meramente
didático-pedagógico, ou seja, o de dar apoio para o programa dos professores.
Há um eixo educativo que a biblioteca tem de seguir, mas sua configuração deve
extrapolar esse limite, porque o eixo cultural é igualmente essencial. Isso
significa trazer autores para conversar, discutir livros, formar círculos de
leitores, reunir grupos de crianças interessadas num personagem, num autor ou
num tema. A biblioteca funciona como uma ponte entre o ambiente escolar e o mundo
externo.
De que modo se realiza essa abertura para fora da escola?
O responsável pela biblioteca tem o papel de articular programas com a
biblioteca pública e fazer contato com a livraria mais próxima, além de estar
atento à programação cultural da cidade. Há uma série de estratégias possíveis
para inserir a criança num contexto letrado. A biblioteca precisa ter outra
finalidade que não seja simplesmente a de um depósito de onde se retiram livros
que depois são devolvidos. Nós não trabalhamos mais com a idéia de unidades
isoladas. O ideal é formar redes, um conjunto de espaços que eu chamo de
estações de conhecimento, cujo objetivo é a apropriação do saber pelas
crianças.
Qual é a necessidade das redes?
Com o atual excesso de informações e a multiplicação de suportes, nenhuma
biblioteca dá conta de todas as áreas em profundidade, até porque não haveria
recursos para isso. O trabalho tem de ser compartilhado com outras unidades da
rede, por meio de mecanismos de busca informatizados. Por exemplo: a escola
guarda um pequeno acervo inicial sobre arte, mas, se o interesse for por um
conhecimento aprofundado, recorre-se a uma biblioteca especializada na área.
Hoje não há mais condições de manter o antigo ideal de bibliotecas
enciclopédicas, que abarcavam todas as áreas de conhecimento.
Quem deve ser o responsável pela biblioteca?
Processar as informações e criar nexos entre elas é um ato educativo. O
responsável, portanto, é um educador para a informação, que nós chamamos de
infoeducador, um professor com especialização em processos documentais. Uma
rede de bibliotecas tem uma plataforma de apoio técnico-especializado, que é a
área do bibliotecário, um especialista em planejamento e organização da
informação. Junto com ele trabalham os educadores, que são especialistas em
processos de mediação de informação. Dar acesso ao acervo não basta para que o
aluno saiba selecionar e processar informações e estabelecer vínculos entre
elas.
De que modo se estimula a autonomia numa biblioteca?
É preciso desenvolver programas para construir competências informacionais.
Isso inclui desde ensinar a folhear um livro — para crianças bem pequenas — até
manejar um computador. Antigamente imperava a idéia de que os adultos é que
deveriam mexer nas máquinas e pegar os livros na estante. Hoje deve-se formar
pessoas que tenham uma atitude desenvolvida, não só de curiosidade intelectual
mas de domínio dos recursos de informação. Essa é uma questão essencial da
nossa época.
Por que a escola tem falhado em ensinar os alunos a processar informações?
Porque se acredita que basta escolarizar as crianças para formar leitores.
De fato, a escola tem o papel de construir competências fundamentais para a
leitura, mas isso não quer dizer formar atitude leitora. Hoje, o que distingue
o leitor das elites do leitor das massas é que o primeiro tem um circuito de
trocas. Ele participa do comércio simbólico da escrita, da produção à recepção:
sabe o que é publicado, informa-se sobre os autores, encontra outros leitores
etc. Já a criança da escola pública muitas vezes não tem livros em casa e só lê
o que o professor pede. Ela não tem com quem comentar. Está sozinha nesse
comércio das trocas simbólicas.
Qual é o mínimo necessário para o funcionamento de uma biblioteca escolar?
Estou convencido de que é a pessoa que trabalha ali, mediando relações
entre a criança, a informação e o espaço. Não precisa ser alguém
superespecializado, mas que compreenda a função da escrita e da imagem e que
saiba qual é a importância daquilo na vida das pessoas. Assim, a compra de
livros seguirá um critério de escolha consciente. É claro que é bom construir
um ambiente agradável e funcional, mas não é indispensável, porque a leitura
não depende das instalações da biblioteca; ela se dá em qualquer lugar.
Quem deve escolher o acervo?
Nós temos trabalhado um modelo em que a escolha é feita por todos os que
participam dos processos de aprendizagem: professores, coordenadores, diretores
e alunos. Formulários são colocados à disposição para que sejam feitas
sugestões de compra. O infoeducador não só coleta esses dados como divulga, por
meio dos quadros de aviso, as informações sobre lançamentos que saem na
imprensa e na internet. Depois, ele vai analisar os pedidos, separá-los em
categorias — livros importantes para os projetos em andamento, leituras de
informação geral ou complementares etc. — e, com base nessas listas, a escolha
é feita de acordo com os recursos disponíveis.
Como comprometer o aluno com a organização e a manutenção da biblioteca?
Ele participa da escolha do acervo e também pode estar pessoalmente
representado nele, por meio de livros que ele escreve e de documentos de sua
passagem pela escola. Uma parte do acervo vem da indústria cultural e outra é
produzida internamente, com documentos e relatos referentes à história da
instituição. Formar um repertório de dados locais cria relações com as
informações universais.
Descreva a biblioteca escolar ideal.
É aquela que possui todo tipo de recurso informacional, do papel ao
equipamento eletrônico. O espaço é construído especialmente para sua finalidade
e de acordo com quem vai usar. Se o público majoritário é infantil, a
disposição dos móveis e do acervo deve permitir que a criança se mova com
autonomia. É preciso ser um local acolhedor, mas que empurre rumo à aventura,
porque conhecer é sempre se deslocar.
Por que se diz que os jovens não gostam de ler?
Os interesses mudam na passagem da infância para a adolescência e a leitura
que era feita antes já não interessa tanto, mesmo porque cresce a concorrência
de outras mídias. Essa é uma transição crítica e ainda não foram definidas
ações específicas para promover a leitura nessa faixa etária. Os adolescentes
identificam o livro com as tarefas da escola, que reforça essa percepção porque
raramente sai da abordagem instrumental da leitura. E no âmbito social, entre
os amigos, a leitura não está presente. Mesmo assim, essa fase é a das grandes
paixões. Portanto, há um espaço enorme para promover a leitura entre os jovens.
É possível formar leitores por meio de políticas públicas?
O problema é saber que caráter elas têm. Eu não concordo com estratégias
que pretendam ensinar os alunos a gostar de ler. A função do poder público é
criar ambientes que dêem condições de ler, tentar despertar as crianças para as
potencialidades da escrita, prepará-las para as competências leitoras — enfim,
providenciar para que seja constituída a trama que sustenta o ato de ler. Mas
gostar de ler é questão de foro íntimo, não de políticas públicas.
A escola deve obrigar um aluno a ler livros e freqüentar bibliotecas mesmo
que ele não goste?
Não se pode deixar de perguntar por que esse aluno não gosta de ler. Ele
teve uma relação negativa com a situação de aprendizagem? Ninguém lê em casa?
Tem dificuldades de visão? Não domina o código? Não tem circuitos culturais a
sua volta? Tudo isso pode e deve ser trabalhado. Agora, se ele teve apoio para
experimentar a prática da leitura e prefere fazer outras coisas, não adianta
forçar. É claro que não estou falando da leitura funcional, indispensável para a
vida diária. Nesse caso, é obrigatório negociar com a criança o "não
querer ler".
É melhor ler literatura de má qualidade do que não ler nada?
A pergunta já supõe que de fato existe uma literatura de má qualidade. Há
leitores que são capazes de voar longe com um suposto mau livro, assim como há
muitos trabalhos escolares que se utilizam de grandes textos, mas sufocam o
interesse de aprender. Por outro lado, não é possível deixar o gosto do leitor
imperar sozinho. É fundamental operar mediações entre as crianças e uma
literatura que tenha condições de produzir significações importantes.
O uso do livro em sala de aula está em decadência?
Ele está aquém do que gostaríamos que fosse e também do que seria
necessário. Mesmo assim, o livro está entrando nas escolas numa medida que não
entrava, nem que seja por meio das distribuições feitas pelo Ministério da
Educação e as secretarias estaduais e municipais. Há 50 anos nem sequer se
sonhava com isso no Brasil. O problema maior é o de mau uso desses livros, com estratégias
impositivas de leitura. Muitas vezes falta penetrar no avesso dos textos com as
crianças e realmente mergulhar numa viagem de conhecimento, de imaginação.
Até que ponto as bibliotecas levam ao hábito da leitura?
Eu participei de uma pesquisa feita com as crianças usuárias das redes de
biblioteca que ajudei a implantar no estado de São Paulo. Queríamos saber se
elas estão incorporando a leitura a sua prática de vida e não apenas como lição
de casa. Qual é a constatação? Houve um grande avanço e as crianças se mostram
muito mais familiarizadas com os livros, mas infelizmente ainda não usam as
novas competências para trocas culturais. Por exemplo: não têm o hábito de
comprar e emprestar livros. A prática escolar não se transferiu para a prática
cultural.
Há perspectiva de mudança para essa situação?
Eu vejo uma tendência de funcionalização. Os meios eletrônicos trouxeram,
aparentemente, uma presença maior da escrita, mas o uso que se faz dela é cada
vez mais abreviado. Vai-se transformando a língua no elemento mínimo para a
transmissão da mensagem. Nós estamos a anos-luz de formar pessoas que, ao cabo
do período de escolaridade, vão se relacionar com a escrita como uma ferramenta
de conhecimento e de experiências estéticas, numa dimensão não pragmática.
Restringir as ferramentas de linguagem a sua função utilitária é retirar de nós
mesmos aquilo que nos humaniza — a capacidade de dizer de uma forma articulada.
As novas bibliotecas têm de enfrentar essa questão.
Fonte: Blog do Galeno